Mistura que salva!

Jornalista Rui Matos

 

Amo a culinária regional e sei fazer todos os seus pratos. Ouço rasqueado, mas não dispenso qualquer outra forma de cultura agregada ao menu regional

Por Rui Matos

Na primeira semana de abril fui a Salvador (BA) participar do Fórum Revista Ano 200, promovido pela Associação Baiana de Imprensa (ABI) e Revista Imprensa. O objetivo foi reunir 100 editores de revistas de todas as regiões do Brasil para discutir questões como, por exemplo, “porque as revistas morrem”? Também aprofundamos num up-to-date sobre o mercado nas últimas e nos próximas décadas.

Vi que o fechamento de revistas e jornais não é privilégio de Mato Grosso. Muitos veículos no país não andam bem das pernas. Dos 185 títulos de revistas mais vendidos em 2000, apenas 80 chegaram ilesos em 2012. No período, foram lançados outros 305 novos títulos, mas 162 deles foram descontinuados com menos de 5 anos de edição.

Vários são os fatores apontados, como má gestão, ausência de planejamento estratégico, foco caolho mas, sobretudo, prioridade da economia nas mídias imediatistas como a televisão, que abocanha sozinha quase metade do bolo publicitário no Brasil – R$28,45 bilhões em 2011, segundo o projeto ‘Inter-Meios, do Meio & Mensagem.

Sem contar a Internet, que dá um “banho de audiência” em qualquer outro meio de comunicação. No Brasil há 42 milhões de pessoas acessando o Facebook, 34 milhões no Orkut, 12 milhões no Twitter, 3,2 milhões no Linkedin e outros 4,3 milhões no Google +, aproximadamente em 2011.

É lógico que não fui à Bahia apenas para filosofar sobre o futuro da mídia impressa. Fui passear também. Numa dessas andanças de praia em praia pensei muito sobre os temas do fórum da ABI.

Adicionei mais uma pitada de “causa mortis” e foi fácil observar que numa cidade como Salvador, de mais de 3,5 milhões de habitantes, nem todos são amantes do axé, capoeira e cultos afros. Basta olhar nas ruas para ver que nem todo baiano usa aquele visual que vemos costumeiramente nas bandas musicais que se proliferam nos programas de TV.

Se numa cidade onde apenas 49,2% é de origem africana e, destes, 54,9% pertence a classes sociais menos favorecidas, é evidente que qualquer revista que foque apenas na cultura regional esteja condenada à morte. Na Bahia estão escrevendo, comercialmente, para o público errado, ignorando os 36,3% de descendência européia, além dos 14,5% de origem indígena. Só para a população flutuante, de cerca de 20%, poderia se escrever uma revista de sucesso editorial.

Se na Bahia nem tudo é festa, por aqui também não temos apenas o rasqueado, pixé, arroz carreteiro e farofa de banana. Sem contar aquele sentimento “Déjà vu” quando abrimos uma revista, jornal, ou sintonizamos um programa de TV para ver pela milionésima vez imagens dos pratos regionais ou o batidão do rasqueado.

Amo a culinária regional e sei fazer todos os seus pratos. Em casa não dispenso uma piraputanga assada e um guaranazinho ralado. Tenho quase todos os CDs de rasqueado e sou fã incondicional do Guapo, um dos poucos que ainda tocam, cantam e compõem o rasqueado raiz. Também curto João Eloy, Roberto Lucialdo, Bolinha, Pescuma e Henrique & Claudinho.

Não sou contra a cultura regional, mas acho interessante explorar também outros valores que já são nossos, tipicamente cuiabanos ou mato-grossenses. Há 20 anos temos na cidade a Banda Strauss, que magistralmente mistura o rasqueado ao bom e velho rock. Alias, já temos na capital mais bandas de rock que de rasqueado. Isso, sem contar a turma da bota e chapéu que hoje tocam onde antes se tocava apenas o “limpa banco”.

Aqui o churrasco gaúcho ganhou adereços cuiabanos e a famosa mandioca. No Sul não se comia churrasco com mandioca, mas com pão salgado ou doce. Mato Grosso não se resume a Cuiabá, Chapada dos Guimarães ou Pantanal. Já temos até festival de viola caipira e “japonês cuiabano”. A “moreninha cuiabana” já tem até concorrente: a “loirinha do CPA”. No rappy hour dos botecos o vinho também já disputa seu espaço com a cerveja, apesar do calor escaldante.

Quero dizer o seguinte: cometer os mesmos erros dos baianos e mandar a nossa mídia impressa para o necrotério. É preciso enxergar a sociedade com todas as suas facetas, inclusive as regionais. O desafio é continuar mostrando o arroz com pequi, mas com os temperos mineiros, goianos, nordestinos ou sulistas.

Como uma das últimas áreas de fronteira agrícola no país e, portanto, como uma das poucas alternativas para a migração de pessoas ligadas ao campo, Mato Grosso é, desde os anos 1960, um pára-raios de diferentes culturas. Saímos de 38 municípios em 1970 para 141 em 2012. Há três mandatos não temos um governador tipicamente mato-grossense. Dos 24 deputados estaduais atuais, apenas oito são nativos. Nas 141 prefeituras, mais de 70% de migrantes ocupam as principais cadeiras. No Judiciário, Ministério Público e iniciativa privada, idem. Hoje, com tanta miscigenação, o mix de regionalismo é bem maior do que se imagina e não pode ser ignorado.

Os números indicam que devemos bombardear com cultura regional? O mais inteligente seria turbinar ambas as fontes e saciar ambas as sedes. Talvez a morte de nossas revistas e jornais locais também esteja relacionada ao exagero continuado de cores, formas, cheiros e sabores tipicamente regionais. Resumindo: a mesmice.

Voltei de Salvador com essa convicção que, aliás, já percebia e praticava na Revista RDM há seis anos. Aproveitei o restinho da folga e dei um giro pela noite da cidade ouvindo sertanejo, MPB, Venerão e rock pelos bares. O cheiro mais forte era o de carne assada, pizza e até baguncinha feito em carrinhos de calçada. No final da noite, a única identidade tipicamente regional que encontrei foi o escaldado do Chopão. Mas valeu a pena. Antigo e novo juntos. Eita mistura, e que mistura boa. Quem ver e escrever, viverá!

Rui Matos é mato-grossense, editor das revistas RDM, de Mato Grosso; e Agenda, de Brasília (DF)

ruimatos@revistardm.com.br

 

 

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Porta-voz não tira folga

“É feriado, não dou entrevista”. As palavras do então secretário de saúde do Rio Grande do Norte, Domício  Arruda, surpreenderam o país, no mesmo dia em que a imprensa destacou a greve dos servidores da saúde e que afetou principalmente o atendimento do principal hospital do estado. A justificativa para explicar por que não daria entrevista não convenceu a opinião pública que espera responsabilidade e atitude de quem é autoridade. Mas aí fica a dúvida: autoridade que, portanto, é porta-voz de alguma instituição, tira folga?

Consultora especializada em Media Training Aurea Regina

Existe folga para quem participa de uma escala de revezamento, ou seja, um tira folga para descanso e outro faz a substituição, sem que haja prejuízo na prestação do serviço. Como no caso em questão, secretário de estado não tem vice, ele nunca deve tirar folga. Claro que pode descansar, mas ao ser chamado para atender uma emergência, tem que se apresentar no posto rapidamente. A falta de entendimento do secretário potiguar não deixa dúvidas de que o cargo de porta-voz tem carga horária permanente, ainda mais em se tratando de serviço público, em que o representante institucional DEVE satisfações à sociedade.

Se ao ser solicitado para a entrevista, o secretário não sabia o que responder e que decisões tomar para driblar a crise, teria o recurso do pedido de tempo, ou seja, ao atender a imprensa (porque a recusa não se justifica nunca), poderia dizer que precisa de mais tempo para resolver a situação e que logo se pronunciaria. A resposta escolhida foi a pior: não dar entrevista porque é feriado é no mínimo, deselegante, e lhe custou a exoneração do cargo e quem sabe tenha restado o aprendizado sobre as funções de um porta-voz.

Artigo de autoria da jornalista, especializada em Media Training, Aurea Regina de Sá.

 

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Daniela Romio lançou um Blog!

Uma das nossas colaboradoras mais assíduas, enfim, lançou seu próprio blog: Linhas Tortas / Daniela Romio. E o Pauta Quente, lógico, não poderia deixar de divulgar essa boa notícia para os nossos leitores.

Acessem, leiam, deliciem-se. Com certeza serão momentos de boa leitura e puro prazer. Parabéns e sucesso com seu novo blog, Daniela!

Aqui do Pauta Quente, todo mundo já viu. Aproveitamos para ‘pescar’ um dos textos e publicar aqui também.

Sofá de mulher magra

Uma das coisas de que ele mais gostava era ficar deitado no sofá da sala. O sofá era fofinho nos lugares certos e tinha braços que nem precisavam de almofada para a gente deitar a cabeça. O assento do meio, um pouco mais afundado que os outros, dava o formato ideal para a soneca durante o jornal. A posição na sala ficara perfeita, depois de muito estudo: deitado, ficava de costas para a claridade da janela, com a cesta de revistas e controles bem à mão. O tecido de algodão azul, já meio desbotado, era confortável no calor e quentinho no inverno.

Uma das coisas que ela mais detestava no apartamento era o sofá velho da sala. O modelo era antiquado, mas sem nenhuma bossa. Fora de moda, como se diz. Os braços, arredondados e fofos, a incomodavam tanto quanto qualquer parte arredondada e fofa que ousasse aparecer em seu próprio corpo. Em tempos de ditadura da magreza, linhas retas eram tudo.

Mas o sofá teimava em ser todo errado. A espuma no assento do meio já estava vencida havia muito, dando a impressão constante de que um hóspede acima do peso (rinoceronte? Elefante-marinho?) acabara de se levantar dali. Mais uma coisa lembrando gordura. E aqueles pés? De madeira, em formato de ânfora grega! Nada podia ser pior. Os seis pés eram seis corpos femininos rechonchudos e voluptuosos a lembrá-la do que aconteceria se ela descuidasse “isso” da dieta ou da academia. Manter seu metro e setenta e cinco de ítalo-brasileira de 33 anos num manequim 38 não era fácil. O tecido azul medonho era só um requinte de crueldade, em meio a tamanha tragédia.

E ele teimava em manter o sofá. Dizia que era o seu canto no apartamento. Onde podia pensar, descansar, resolver palavras cruzadas, assistir a filmes, ouvir música, qualquer coisa. Até sexo já haviam tentado ali, mas ela jamais conseguira se sentir sexy sobre um móvel tão gordo.

Ele viajou por uma semana. Quando entrou em casa novamente, pensou ter errado a porta. Mas o laço e o cartão estavam lá. “Um novo cantinho especial para você”, dizia a letra dela no quadradinho de papel sobre aquela aberração quadrada, de braços duros, toda estreita, com revestimento de couro. E branco.

Como é que ele poderia se sentir bem naquele sofá? Já não lhe bastava a mulher, que, a cada ano depois de casada, ficava mais magra, mais reta, mais dura? Agora, seu sofá fofinho e aconchegante se transformara em um sofá de dieta. Um sofá lipado! E de couro. E branco! Como pôr os pés em cima daquele sofá?

Sem seu último elo com aquela casa e com aquela vida, ele se viu sem rumo. Ela chegou e não entendeu o desespero dele. Mais tarde, diria aos amigos que ele parecia ter perdido um parente, não apenas o sofá velho que ela tivera que doar: “Nenhum pregão quis!”.

Ele não descansou enquanto não localizou a casa da irmã da faxineira, que ficou feliz em vender de volta, por uma quantia módica, seu recém-ganhado sofá. Vendeu também uma geladeira seminova, pequena, de gente solteira. O sofá e a geladeira foram os primeiros móveis que ele levou para o apartamento novo, em outro prédio, em outro bairro, que ele foi mobiliando sozinho, após longas visitas às lojas de móveis usados. E ele foi feliz de novo.

Ela também tentava ser feliz, em harmonia plena com seu sofá de gente moderna e magra. Mas chorava, às vezes, de saudade, abraçada à velha calçajeans tamanho 44, que ainda guardava escondida no armário e que era sua favorita quando o conhecera, linda e segura de si, num tempo em que era tão jovem, tão inexperiente, tão sábia.

Daniela Lepinsk Romio, jornalista, cronista e opositora à ditadura das balanças e calças jeans 40 que parecem 14.

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A vida é um banquete

Por Rose Domingues

Estava no ônibus a caminho do centro de Cuiabá quando li o texto. O barulho, as pessoas passando, o calor escaldante, o entra-e-sai, mas eu estava ali com as palavras sábias de Epitecto. Foi um momento perfeito. ‘Encare a vida como um banquete’. Mas o que isso quer dizer? Vamos lá, pense em sua vida como se ela fosse um banquete em que você precisasse comportar-se com elegância. Quando as travessas forem passadas para você, estenda a mão e sirva-se de quantidades moderadas. Se uma travessa não lhe for passada, saboreie o que já está no seu prato. Ou, se a travessa ainda não lhe foi passada, espere pacientemente a sua vez. Mantenha essa mesma atitude de contenção e gratidão delicadas no trato com seus filhos, cônjuge, carreira e finanças. Não há necessidade de ansiar por alguma coisa, invejar ou apoderar-se seja do que for. Você receberá sua devida porção quando chegar a sua vez. Diógenes e Heráclito foram modelos impecáveis de pessoas que viveram de acordo com esses princípios em vez de se deixarem levar por impulsos desprezíveis. Tenha como objetivo imitar o valioso exemplo deles. Eu chorei. Chorei porque nem sempre me comporto assim.

Como hoje, na fila de espera para comprar o ingresso do cinema. Dei um ataque de nervos porque o horário da sessão estava extrapolado, precisei correr até o caixa para sacar dinheiro, enfrentar duas vezes a fila e quando chegou a minha vez três pessoas passaram na minha frente porque o caixa vago só passava cartão e cartão Mastercard (que não é o meu tipo). Mas a sensação de arrependimento tomou conta de mim logo que respirei fundo e entrei na sala do cinema. Que vergonhoso perder a paciência. O que a moça do caixa tem a ver com isso? O que o mundo tem a ver com meu descontrole emocional? Blasfemar não resolveu o problema. Esperar a minha vez, pacientemente, sim.

Ao sair do filme ansiava por pedir desculpas. Por que não? Com um chocolate nas mãos, uma cara bem lavada, cheguei para a jovem que estava no caixa do cinema: ‘Me desculpe a falta de gentileza com você, nada justifica a minha atitude’. Não doeu, não fez cair a minha língua, porém encheu meu coração de esperança, vai chegar um dia que eu realmente serei alguém melhor, melhor mesmo. Alguém que vai ser a própria verdade e não precisará mais gritar ‘isto é certo, isto é errado’. Alguém que simplesmente não se irritará, apenas agirá dentro das leis do universo, da natureza. Porque não importa o que os outros são ou façam ou digam, importa é a gente estar agindo adequadamente. Você também consegue, preste atenção aos detalhes, são eles que conferem elegância. Namastê!

*Rose Domingues, editora da Revista Única, mãe do Pedro e da Júlia, rosedomingues@revistaunicaonline.com.br, alguém que adora escrever no próprio blog: http://www.abracadabradasideias.blogspot.com.br/

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O verdadeiro desafio do jornalismo nas redes sociais

Por Cleyton Carlos Torres / Observatório da Imprensa

O maior desafio do jornalismo digital em relação às redes sociais não é, necessariamente, as redes sociais. O fenômeno do compartilhamento frenético de conteúdo fez com que o jornalismo se acusasse em certos pontos e momentos, porém avançasse em determinados contextos que talvez não necessitassem tanta preocupação. Vale a máxima de que distribuir o mesmo conteúdo em diversas plataformas não é estratégia; é preguiça.

Com a apropriação das redes sociais nas redações, o jornalismo deparou muito mais com um problema de gestão do que de produção e adequação. A gestão, aqui, vai além de novos modelos de negócio. O grande desafio para o jornalismo é a gestão engessada de visão e comportamento que não se concilia com o atual momento vivido pela informação online. É como encaixar uma peça redonda em um buraco quadrado.

Perder o controle da informação, produzir um plano editorial individual para cada canal social e, ao mesmo tempo, ser capaz de integrar todos os meios, é um desafio de gestão, não apenas de produção. O jornalismo digital que quer usufruir das redes sociais precisa ter em mente que há curadores de conteúdo tão influentes quanto veículos “oficiais” oferecendo análises tão profundas ou furos tão extraordinários quanto qualquer mídia tradicional.

Pensamento crítico

E é exatamente esse aparente “conflito” gerado pelos novos “concorrentes” que faz o jornalismo se perder em alguns pontos. Não que o jornalismo digital não saiba utilizar as redes sociais, o problema é como ele quer utilizar. Muitas empresas querem chegar de terno e gravata nas redes sociais, sendo que o ambiente vigente e outro. O jornalismo quer adentrar a timeline dos usuários da mesma forma que o impresso às 7 da manhã chegava todos os dias na sua casa: sem diálogo.

Esse diálogo não deve se estabelecer em uma estrutura artificial de conversa, onde algumas menções e citações sejam consideradas um bate-papo de mão dupla com os usuários. O jornalismo de dados, por exemplo, vai muito além de destrinchar as informações através dos novos padrões de se produzir informação; vai direto ao ponto de reformular a gestão atual do jornalismo.

Era mais conveniente deter total controle sobre as direções em que as informações as jornalísticas trafegam. Era uma gestão onde se possuía o controle da produção, da publicidade e, principalmente, dos pensamentos críticos acerca do conteúdo oferecido e da própria empresa de comunicação. Com as redes sociais tudo isso é profundamente alterado, sofrendo um impacto que “prejudica” o modelo tradicional de gestão que até então era tido como único. É mais do que uma questão de ego; é uma pura questão de zona de conforto.

Cleyton Carlos Torres é jornalista, pós-graduado em assessoria de imprensa, gestão da comunicação e marketing e pós-graduado em política e sociedade no Brasil contemporâneo

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